ISTs entre mulheres lésbicas ainda são cercadas por mitos, silêncio e negligência

Baixa testagem, invisibilidade nos serviços de saúde e falhas na informação ampliam riscos para mulheres que fazem sexo com mulheres — uma população ainda à margem das políticas públicas

A crença de que mulheres lésbicas estão fora do risco de contrair infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) persiste no imaginário social — e continua produzindo efeitos concretos, perigosos e silenciosos. Sustentada por desinformação histórica, lacunas na educação em saúde e pela invisibilidade dessa população nos serviços públicos, essa falsa ideia contribui diretamente para a baixa testagem, o diagnóstico tardio e a circulação não identificada de infecções.

“Sim, mulheres que fazem sexo com mulheres podem contrair ISTs”, afirma a infectologista Flavia Bartolleti. Infecções como HIV, sífilis, hepatites e HPV podem ser transmitidas em relações entre mulheres, assim como em qualquer outra prática sexual.

Apesar disso, o risco ainda é amplamente subestimado — inclusive dentro do próprio sistema de saúde. “Existe um imaginário de que, se não há penetração ou presença de um órgão sexual masculino, não há transmissão. Isso está ligado também à invisibilização das relações entre mulheres, como se não fossem consideradas sexo”, explica.

Essa percepção distorcida não apenas desinforma, mas também molda comportamentos — afastando mulheres de práticas básicas de cuidado e prevenção.

Desinformação alimenta baixa testagem e transmissão silenciosa

A falsa sensação de segurança impacta diretamente o autocuidado e o acesso aos serviços de saúde. Sem reconhecerem o risco, muitas mulheres deixam de realizar exames de rotina e de buscar acompanhamento médico regular.

“O principal problema é a falta de informação e esse mito de invulnerabilidade”, destaca a médica.

O resultado é um cenário propício à disseminação silenciosa das infecções. “Muitas ISTs não apresentam sintomas. A pessoa pode estar transmitindo sem saber”, afirma.

Dados de uma pesquisa conduzida pela Dra. Bartolleti com mais de 1.500 pessoas ajudam a dimensionar essa realidade. O estudo revela que cerca de 17% nunca realizaram testes rápidos para ISTs, como HIV, sífilis e hepatites.

Além disso, 16% das participantes já tiveram alguma IST ao longo da vida. O HPV aparece como o diagnóstico mais frequente, presente em cerca de 10% dos casos — um dado que reforça a necessidade de rastreamento regular e prevenção adequada.

Prevenção existe, mas não chega de forma efetiva

Embora existam estratégias eficazes de prevenção, elas ainda são pouco conhecidas, pouco discutidas e raramente incorporadas na rotina das mulheres que fazem sexo com mulheres.

Métodos de barreira — como adaptações de preservativos — e o uso de lubrificantes à base de água podem reduzir significativamente os riscos de transmissão. No entanto, essas práticas ainda não são amplamente disseminadas.

Na pesquisa, apenas 2% das participantes relataram usar algum tipo de barreira de proteção nas relações sexuais entre mulheres.

Por outro lado, o uso de lubrificantes aparece como prática mais comum, citado por cerca de 60% das entrevistadas — ainda que nem sempre de forma adequada ou com finalidade preventiva.

O estudo também revela um paradoxo importante: embora 86% afirmem já ter recebido alguma informação sobre prevenção — principalmente pelas redes sociais — apenas 14% dizem se sentir totalmente satisfeitas com esse conhecimento.

O dado evidencia uma lacuna crítica: a informação até circula, mas não necessariamente chega com qualidade, clareza ou aplicabilidade.

“Testagem regular, acesso ao tratamento e informação são fundamentais”, reforça a Dra. Bartolleti.

Preconceito e despreparo ainda afastam mulheres dos serviços de saúde

Se a desinformação já representa uma barreira importante, o preconceito institucional amplia ainda mais as dificuldades de acesso ao cuidado.

Relatos recorrentes indicam que muitas mulheres lésbicas não se sentem acolhidas durante consultas médicas — e, em alguns casos, evitam retornar aos serviços após experiências negativas.

Segundo a pesquisa, 43% das participantes relataram já ter sofrido algum tipo de atitude preconceituosa em serviços de saúde.

Esse ambiente hostil ou despreparado impacta diretamente a realização de exames essenciais. Parte das entrevistadas relatou nunca ter feito procedimentos básicos, como o papanicolau, ou abandonou o acompanhamento após vivências de discriminação.

“Há casos em que o profissional não solicita exames ou afirma que aquela prática não oferece risco”, relata a médica.

A consequência é dupla: além da exclusão simbólica, há prejuízo concreto na prevenção, no diagnóstico precoce e no tratamento adequado.

Invisibilidade estatística impede avanço de políticas públicas

A fragilidade dos dados disponíveis sobre a saúde sexual de mulheres lésbicas é outro entrave significativo. A ausência de recortes específicos em pesquisas nacionais dificulta a compreensão real do problema — e, consequentemente, a formulação de respostas efetivas.

“Se a gente não pesquisa, não tem informação. E sem informação, não há políticas públicas”, afirma Bartolleti.

Sem dados consistentes, essa população permanece à margem das estratégias de prevenção, das campanhas educativas e da organização dos serviços de saúde.

Informação, acolhimento e visibilidade são urgentes

Diante desse cenário, especialistas apontam que ampliar o acesso à informação qualificada é uma das medidas mais urgentes. Isso passa por campanhas inclusivas, formação adequada de profissionais de saúde e incentivo contínuo à testagem.

“O básico é se testar, fazer exames como o papanicolau e não ter vergonha de falar sobre isso com a parceira”, orienta a médica.

Mais do que corrigir equívocos, trata-se de reconhecer uma realidade historicamente negligenciada. Dar visibilidade à saúde sexual de mulheres lésbicas é essencial para reduzir vulnerabilidades, interromper cadeias de transmissão e garantir acesso equitativo ao cuidado.

Fonte: Agência Aids