Estudos com crianças e adolescentes apontam novos caminhos para remissão do HIV e tratamentos mais simples

Estudos apresentados em conferência internacional mostram casos de remissão sem tratamento, avanço de terapias com anticorpos e consolidação de injetáveis de longa duração para jovens

Resultados inéditos apresentados na Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections 2026, uma das principais conferências científicas sobre HIV no mundo, indicam uma mudança relevante na forma de tratar crianças e adolescentes que vivem com o vírus. Pesquisas conduzidas na África sugerem que, quando o tratamento começa nos primeiros dias de vida, parte dessas crianças pode alcançar remissão viral mesmo após a interrupção da terapia — um cenário raro até então.

Os dados chegam em um contexto preocupante: cerca de 1,4 milhão de crianças vivem com HIV no mundo, com 130 mil novas infecções anuais. Apenas 57% estão em tratamento e menos da metade atinge supressão viral, segundo estimativas globais apresentadas no encontro.

Remissão viral em crianças desafia padrão observado em adultos

Um dos destaques da conferência foi a apresentação da pesquisadora Gabriela Cromhout, da University of KwaZulu-Natal, que acompanha uma coorte de crianças tratadas imediatamente após o nascimento.

O estudo avaliou 19 crianças que interromperam o tratamento de forma controlada. Em seis delas, o vírus não retornou imediatamente:

* três seguem sem carga viral detectável até hoje, sem uso de medicamentos
* outras três apresentaram rebote tardio, após meses ou até anos

Dois casos chamaram a atenção: crianças que permanecem sem tratamento há 30 e 52 meses, respectivamente.

O resultado contrasta com o que se observa em adultos: em geral, a grande maioria apresenta retorno do vírus em até seis semanas após interromper a terapia antirretroviral.

Segundo os pesquisadores, a explicação pode estar no início ultrace do tratamento, que limitaria a formação dos chamados reservatórios virais — células onde o HIV permanece “escondido” no organismo.

Atualmente, oito crianças dessa linha de pesquisa permanecem em remissão viral sustentada, um número ainda pequeno, mas considerado altamente relevante do ponto de vista científico.

Estudo testa anticorpos como alternativa à terapia contínua

Outra frente de pesquisa apresentada na conferência aposta em uma estratégia diferente: o uso de anticorpos amplamente neutralizantes (bnAbs) para controlar o vírus sem necessidade de tratamento diário.

O estudo Tatelo Plus, conduzido pelo Botswana–Harvard Aids Institute Partnership, avaliou dez crianças que receberam uma combinação de três anticorpos e interromperam a terapia antirretroviral.

Até o momento:

* todas mantêm carga viral indetectável
* a maioria não apresenta anticorpos detectáveis para HIV — um fenômeno raro chamado sororreversão

Os pesquisadores agora investigam se esse controle se mantém após a suspensão dos próprios anticorpos. Caso se confirme, será a primeira evidência de controle pós-tratamento induzido por essa estratégia em crianças.

Injetáveis de longa duração avançam entre adolescentes

Enquanto estratégias de remissão ainda estão em fase experimental, outra abordagem já apresenta resultados mais consolidados: os antirretrovirais injetáveis de longa duração.

Dados finais de um estudo internacional apresentados pelo pesquisador Aditya Gaur mostram que adolescentes entre 12 e 17 anos conseguiram manter controle do HIV com aplicações a cada dois meses.

Após 96 semanas de acompanhamento:

* nenhum participante apresentou falha virológica
* 94% mantiveram supressão viral completa
* mais de 97% preferiram as injeções ao uso diário de comprimidos

A adesão ao tratamento — um dos principais desafios nessa faixa etária — foi considerada elevada, com mais de 95% dos jovens permanecendo no estudo.

Efeitos adversos foram registrados, principalmente reações no local da injeção, mas em geral leves e transitórias. Houve um caso de reação alérgica grave, com recuperação completa.

Mudança de paradigma ainda em construção

Especialistas ouvidos durante a conferência destacam que os resultados não representam ainda uma cura para o HIV, mas apontam para uma possível mudança de paradigma.

De um lado, o início precoce do tratamento pode abrir caminho para estratégias de remissão funcional — em que o vírus permanece controlado sem terapia contínua. De outro, tecnologias como anticorpos e medicamentos de longa duração ampliam as opções para populações que enfrentam dificuldades com adesão.

Na prática, os avanços apresentados na CROI 2026 indicam que o futuro do tratamento pediátrico do HIV pode combinar diferentes abordagens: intervenção precoce, terapias inovadoras e esquemas mais simples.

Para uma epidemia que ainda atinge milhares de crianças todos os anos, o impacto potencial dessas estratégias vai além da inovação científica — e pode redefinir o cuidado em escala global.

Fonte: Agência Aids com informações.