Doxiciclina entra na prevenção de ISTs no SUS e inaugura nova frente no combate à sífilis e à clamídia

“A DoxyPEP amplia as opções de prevenção e pode ajudar a reduzir o número de ISTs bacterianas no país”, afirma o infectologista Mateus Cardoso sobre a decisão do Ministério da Saúde de incorporar a estratégia ao SUS.

O Brasil acaba de dar mais um passo na ampliação das estratégias de prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). O Ministério da Saúde publicou a Portaria SCTIE/MS nº 16, de 10 de março de 2026, que autoriza o uso da doxiciclina 100 mg como profilaxia pós-exposição (PEP) para prevenir ISTs bacterianas no Sistema Único de Saúde (SUS).

A medida incorpora à rede pública a estratégia conhecida internacionalmente como DoxyPEP, que consiste na utilização do antibiótico após uma relação sexual com risco de exposição a determinadas bactérias, com o objetivo de impedir que a infecção se estabeleça no organismo.

Neste primeiro momento, a estratégia será indicada para a prevenção de duas importantes ISTs bacterianas: sífilis e clamídia, infecções que vêm apresentando aumento de casos nos últimos anos no Brasil e em diversos países.

A decisão foi tomada pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, após avaliação técnica da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), responsável por analisar evidências científicas, eficácia, segurança e impacto de novas tecnologias antes de sua adoção na rede pública.

A partir da publicação da portaria, as áreas técnicas da pasta terão até 180 dias para organizar a implementação da estratégia, o que inclui atualização de protocolos clínicos, definição de fluxos de atendimento e capacitação das equipes de saúde.

Nova ferramenta para enfrentar o aumento das ISTs

Para o infectologista Mateus Cardoso, do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo, a decisão chega em um momento estratégico para a resposta brasileira às infecções sexualmente transmissíveis.

“A decisão do Ministério da Saúde de incorporar a DoxyPEP ao SUS chega em um momento importante. Nos últimos anos, o Brasil tem registrado aumento nos casos de infecções sexualmente transmissíveis, as ISTs, principalmente sífilis e clamídia. Quando falamos em ISTs, estamos falando de infecções que podem ser transmitidas durante relações sexuais, muitas vezes sem sintomas no começo, o que torna a prevenção ainda mais importante.”

Segundo o médico, a estratégia se baseia em um princípio já utilizado em outras intervenções de saúde pública: agir rapidamente após uma possível exposição.

“Nesse contexto, a DoxyPEP surge como uma nova possibilidade de cuidado. A sigla vem do inglês e significa, de forma simples, o uso do antibiótico doxiciclina depois de uma relação sexual com risco de exposição a uma infecção bacteriana. A ideia é parecida com outras estratégias já conhecidas na saúde: agir rapidamente depois da exposição para tentar evitar que a infecção se instale.”

Evidências científicas apontam forte redução de casos

Nos últimos anos, diversos estudos internacionais passaram a investigar o impacto da DoxyPEP na prevenção de ISTs bacterianas. Os resultados têm sido considerados promissores, especialmente para algumas infecções.

“Estudos feitos em diferentes países mostram que essa estratégia pode ajudar bastante a reduzir novos casos de sífilis e clamídia, com resultados menos consistentes no caso da gonorreia. Em outras palavras, a DoxyPEP parece funcionar muito bem para algumas infecções bacterianas, mas não da mesma forma para todas.”

De acordo com Mateus Cardoso, os resultados mais expressivos foram observados entre populações que enfrentam maior vulnerabilidade epidemiológica.

“Os resultados mais expressivos foram observados, sobretudo, entre homens que fazem sexo com homens e mulheres trans, grupos que, em muitos contextos, acabam sendo mais afetados por algumas dessas infecções. Em vários estudos, a redução dos casos foi superior a 60%. Isso significa que, entre as pessoas que usaram a estratégia corretamente, houve uma queda importante no número de novas infecções.”

Além dos ensaios clínicos, experiências em serviços de saúde também vêm reforçando o potencial da estratégia.

“Além dos estudos, o uso da DoxyPEP no dia a dia também vem trazendo resultados positivos em alguns serviços de saúde, como em San Francisco, nos Estados Unidos. Isso é importante porque mostra que a estratégia não funciona apenas em pesquisa, mas também pode ter impacto real na vida das pessoas.”

Uso responsável e monitoramento serão fundamentais

Apesar do potencial da nova estratégia, a ampliação do uso de antibióticos exige atenção especial de gestores e profissionais de saúde.

“Ao mesmo tempo, é preciso falar com responsabilidade sobre os desafios. A principal preocupação é a chamada resistência antimicrobiana. Em termos simples, isso acontece quando bactérias passam a não responder mais tão bem aos antibióticos, o que pode dificultar tratamentos no futuro. Por isso, toda vez que se propõe o uso mais frequente de um antibiótico, esse debate precisa estar presente.”

Outro tema frequentemente discutido nas pesquisas é o impacto da medicação no microbioma — o conjunto de microrganismos que vivem naturalmente no corpo humano.

“Outro termo que costuma gerar dúvida é microbioma. O microbioma é o conjunto de microrganismos que vivem naturalmente no nosso corpo, especialmente no intestino. Eles fazem parte do funcionamento normal do organismo. Até agora, os estudos indicam que a DoxyPEP não parece causar grandes alterações nesse equilíbrio no curto prazo, mas ainda será importante acompanhar melhor os efeitos a longo prazo.”

Parte da prevenção combinada

Para o dr. Mateus Cardoso, o principal potencial da DoxyPEP está justamente em seu uso integrado a outras estratégias de prevenção já consolidadas no SUS.

“Considero essencial reforçar que a DoxyPEP não deve ser vista como uma solução única. Ela não substitui o acompanhamento em saúde, a testagem regular, o uso de preservativos, a informação de qualidade e o cuidado contínuo. Seu maior potencial está justamente em fazer parte de uma prevenção combinada, ou seja, de um conjunto de estratégias que se somam para proteger melhor cada pessoa.”

Nesse sentido, a nova estratégia passa a integrar um conjunto de ações já existentes na rede pública, como a testagem regular para HIV e outras ISTs, o tratamento oportuno das infecções, a distribuição gratuita de preservativos e outras estratégias biomédicas de prevenção.

Avanço na resposta brasileira às ISTs

Para o infectologista, a incorporação da DoxyPEP representa uma ampliação importante das ferramentas disponíveis para a saúde pública brasileira.

“Por isso, vejo a incorporação da DoxyPEP no SUS como um avanço importante. Ela amplia as opções de prevenção na rede pública e pode ajudar a reduzir o número de ISTs bacterianas no país. Mas, para funcionar bem, será necessário ter orientação clara, profissionais capacitados e acompanhamento constante dos resultados.”

“Se usada com critério e direcionada para quem mais pode se beneficiar, a DoxyPEP tem potencial para se tornar uma ferramenta relevante no cuidado com a saúde sexual no Brasil.”

Com a nova portaria, o país passa a integrar o grupo de nações que discutem ou já implementam a estratégia como parte das políticas públicas de prevenção às infecções sexualmente transmissíveis — um movimento que pode marcar uma nova etapa na resposta global às ISTs.

Fonte: Agência Aids