CROI 2026: Incidência de HIV segue alta entre mulheres trans nos EUA e escancara desigualdades raciais, aponta grande coorte nacional

Uma grande coorte nacional conduzida nos Estados Unidos acendeu um alerta contundente sobre a epidemia de HIV entre mulheres trans. Dados apresentados na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas, realizada na semana passada em Denver, revelam que a incidência do vírus permanece elevada e marcada por profundas desigualdades raciais e sociais.

À frente da pesquisa, a epidemiologista Sari Reisner, da Universidade de Michigan, foi direta: “Nosso estudo constatou que a incidência de HIV continua alta entre mulheres trans nos EUA e que as disparidades persistem entre raças e etnias, com a maior incidência de HIV entre mulheres trans negras, latinas e asiáticas”.

Uma população historicamente vulnerável

Globalmente, mulheres transgênero figuram entre os grupos mais vulneráveis à infecção pelo HIV. Ainda assim, medir com precisão quantas novas infecções ocorrem em determinado período é um desafio metodológico, pois exige acompanhamento longitudinal — algo raro em estudos com essa população.

Nos Estados Unidos, mulheres trans chegaram a ser priorizadas na Estratégia Nacional de HIV/Aids para o período de 2022 a 2025. No entanto, decisões recentes da atual administração federal ameaçaram direitos da população trans e impactaram a produção de dados. Ao restringir o reconhecimento de gênero ao sexo biológico, definido de forma binária, a coleta de informações sobre identidade de gênero se tornou mais difícil — o que pode comprometer pesquisas futuras.

Além das barreiras na produção de dados, persistem obstáculos estruturais no acesso à prevenção e ao tratamento do HIV, como discriminação, pobreza, falta de moradia e dificuldades no acesso a serviços de saúde.

O estudo ENCORE

A pesquisa faz parte da coorte ENCORE (Enhanced Cohort Methods for HIV Research and Epidemiology), que acompanha mulheres trans adultas — e outras pessoas designadas do sexo masculino ao nascer que não se identificam como homens — em nove centros nos Estados Unidos, incluindo um em Porto Rico, além de uma plataforma online.

Embora a base digital seja o eixo central do estudo, os centros presenciais foram estrategicamente instalados em cidades como Atlanta para ampliar o engajamento e oferecer apoio local. As participantes foram recrutadas entre 2023 e 2024 e responderam a questionários e testes de HIV a cada seis meses durante dois anos.

Ao todo, 2.504 mulheres trans participaram da coorte — 64% recrutadas online. Todas as quatro regiões censitárias do país estiveram representadas, com um terço da amostra concentrada no Sul. A mediana de idade foi de 32 anos; 81% tinham 25 anos ou mais. A maioria se declarou branca (78%), enquanto 12% eram negras e 5% asiáticas; 16% se identificaram como latinas.

Os indicadores sociais revelam um quadro de vulnerabilidade significativo:

* 49% tinham plano de saúde público ou nenhum plano;

* 30% relataram viver em situação de pobreza;

* 10% haviam se envolvido em trabalho sexual nos seis meses anteriores;

* 9% estavam em situação de rua no mesmo período;

* 72% sofreram violência ao longo da vida, sendo 26% nos seis meses anteriores;

* 48% relataram quatro ou mais experiências adversas na infância, como abuso ou negligência.

Nos seis meses anteriores ao levantamento:

* 40% relataram sofrimento psicológico;

* 27% consumo nocivo de álcool;

* 11% uso de estimulantes como cocaína e metanfetamina cristal;

* 4% relataram infecções sexualmente transmissíveis;

* 34% tiveram relações sexuais com homens cisgênero.

PrEP: elegibilidade e desafios

Nos seis meses anteriores, 16% das mulheres trans eram elegíveis para profilaxia pré-exposição (PrEP), segundo critérios dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA e fatores específicos para pessoas trans, como compartilhamento de agulhas para injeção de silicone.

No mesmo período, 18% relataram uso de PrEP — a maioria na forma oral (94%). Apenas 4% utilizaram PrEP injetável de longa duração e 2% combinaram métodos.

Incidência elevada e desigual

Foram registrados 39 novos diagnósticos de HIV na coorte: 25 identificados no início do estudo e 14 durante o acompanhamento. A taxa de incidência foi de 3,95 casos por 1.000 pessoas-ano (IC 95%: 2,2–6,6).

Embora a incidência tenha sido semelhante entre faixas etárias, as desigualdades raciais e regionais foram marcantes.

Entre mulheres trans negras, a incidência chegou a 15,5 por 1.000 pessoas-ano (IC 95%: 6,2–31,8), comparada a 1,4 entre mulheres trans brancas (IC 95%: 0,4–3,7). Entre mulheres asiáticas, a taxa foi de 5,7 (IC 95%: 0,1–31,6). Em termos étnicos, mulheres trans latinas apresentaram incidência de 7,5 (IC 95%: 2–19,1), contra 3,3 entre não latinas (IC 95%: 1,6–6,1).

Regionalmente, o Nordeste apresentou a maior incidência, com 8,9 (IC 95%: 3,26–19,3), seguido pelo Sul, com 4,1 (IC 95%: 1,3–9,6).

O peso das vulnerabilidades estruturais

Os dados mostram uma ligação direta entre fatores estruturais e risco de infecção. Mulheres trans em situação de rua tiveram risco quatro vezes maior de adquirir HIV. O risco subiu para cinco vezes entre aquelas envolvidas em trabalho sexual e para seis vezes entre as que viviam em pobreza.

O dado mais expressivo refere-se ao acesso à saúde: mulheres com plano público ou sem qualquer plano apresentaram risco quase 14 vezes maior de infecção em comparação com aquelas com plano privado.

O uso de estimulantes esteve associado a risco seis vezes maior de aquisição do HIV. Já experiências de violência e traumas na infância, embora amplamente prevalentes, não mostraram associação estatística com a incidência.

Mulheres elegíveis para PrEP apresentaram incidência quase dez vezes maior do que as não elegíveis — reflexo de que os critérios de elegibilidade capturam justamente as situações de maior risco. Também houve maior incidência entre aquelas que relataram IST recente ou relações com homens cisgênero.

Curiosamente, mulheres que relataram uso de PrEP também apresentaram maior risco de infecção em comparação com aquelas que não usaram. Segundo Reisner, isso provavelmente reflete dificuldades de acesso contínuo e adesão à PrEP oral.

“A associação entre adesão à PrEP e soroconversão, e a baixa prevalência de PrEP injetável de longa duração na amostra, sugerem oportunidades para ampliar o uso da PrEP injetável nessa população”, observou a pesquisadora.

Pesquisa sob ameaça

Para Reisner, os resultados deixam claro que políticas universais não são suficientes. “As mulheres trans precisam de intervenções personalizadas que afirmem sua identidade de gênero e sejam seguras — especialmente no momento atual”, afirmou.

Ela também alertou para o risco de apagamento institucional. “A continuidade da pesquisa com foco na inclusão de gênero é vital, principalmente considerando o apagamento dessa população dos nossos conjuntos de dados financiados pelo governo federal, para que possamos identificar e monitorar as disparidades e o que está funcionando.”

Em um cenário de retrocessos políticos e vulnerabilidades estruturais persistentes, os dados da ENCORE reforçam que a epidemia de HIV entre mulheres trans nos Estados Unidos está longe de ser controlada — e que as desigualdades raciais seguem como um dos eixos centrais dessa crise.

Fonte: Redação da Agência de Notícias da Aids com informações