Autoteste de HIV exige informação: infectologista dá orientações sobre uso seguro
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o uso de autotestes de HIV como parte das estratégias de testagem para ampliar o acesso e aumentar a frequência do rastreio do vírus. No Brasil, o autoteste é considerado uma ferramenta de triagem, que exige confirmação em serviço de saúde em caso de resultado positivo.
Desde a incorporação da estratégia no Sistema Único de Saúde (SUS), em 2018, o governo adquiriu inicialmente 400 mil kits em um projeto-piloto, que serviu de base para a expansão nacional da política pública a partir de 2020.
Junto dessa implementação, o Ministério da Saúde publicou as ‘Diretrizes para a Distribuição do Autoteste de HIV no Brasil’. O objetivo é garantir que o recurso seja usado de forma segura, eficaz e responsável.
Para falar sobre essas orientações de forma didática, a Agência Aids conversou com o médico infectologista Dr. Lucas Rocker, que atua no Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo (CRT Santa Cruz) e no Hospital Emílio Ribas. Ele avalia que a popularização do autoteste de HIV no Brasil representa um avanço importante no acesso à prevenção. Apesar da alta confiabilidade, faz um alerta: “O autoteste deve ser usado como ferramenta de autocuidado e nunca como diagnóstico definitivo.”
O que é o autoteste?
“O autoteste é uma metodologia diagnóstica. Ele é um teste que a gente chama de imunocromatografia [um tipo de teste rápido que identifica doenças infecciosas], semelhante ao teste de gravidez. É um teste sorológico, específico do HIV, que detecta anticorpos contra o vírus.”
“O autoteste é uma metodologia de cuidado dentro da prevenção combinada. Ele ajuda no autocuidado e facilita o diagnóstico precoce. Mas não pode ser visto de forma isolada.”
Tipos de autoteste
O Dr. Lucas explica a diferença dos testes de punção digital — aqueles de ‘furar o dedo’, e dos testes de fluido oral:
“O de punção digital exige mais destreza. É preciso higienizar a mão, furar o dedo, coletar a quantidade certa de sangue. Eu mesmo, que sou profissional de saúde, achei difícil realizar alguns desses. Já o de fluido oral é muito mais simples, basta passar o swab entre a gengiva e o lábio, e ainda assim mantém boa acurácia.”
Eficiência e acurácia
Apesar de ainda ser relativamente novo no Brasil, o autoteste de HIV tem se mostrado altamente confiável.
“Os autotestes que a gente tem disponíveis no Brasil são de terceira geração. Isso quer dizer que são bastante confiáveis. Eu digo que eles têm uma acurácia muito boa, que significa confiar que o negativo é negativo mesmo ou que o positivo é positivo mesmo.”
Dados internacionais reforçam a afirmação: de acordo com dados compilados pela organização internacional Aidsmap/NAM, os testes rápidos de HIV de terceira geração apresentam sensibilidade e especificidade acima de 99%. Informações semelhantes constam em relatórios da OMS.
O médico ainda esclarece a diferença dos autotestes de diferentes gerações:
“O teste de quarta geração, além dos anticorpos, procura a proteína P24, que aparece primeiro. Então, permite detectar a infecção mais cedo. No de terceira geração, que é o que temos como autoteste no Brasil, só buscamos os anticorpos. Ambos são eficazes, mas é preciso prestar atenção em qual momento o teste está sendo feito.”
E os falsos resultados?
Apesar da alta precisão, o Dr. Lucas Rocker lembra que há situações em que podem ocorrer resultados equivocados:
“Um falso negativo pode acontecer, mas não porque o teste seja ruim. E sim porque foi feito no momento errado. O autoteste detecta infecções já estabelecidas, não infecções muito recentes. E ele nunca vai trazer um diagnóstico definitivo. Um resultado positivo precisa ser confirmado em uma unidade de saúde, com testes rápidos e exames laboratoriais.”
Ele ressalta ainda que falsos positivos também podem ocorrer:
“Falsos positivos também podem acontecer, embora pouco prováveis se o teste for feito corretamente e no momento adequado. Por isso, é sempre necessário confirmar.”
Janela imunológica: um alerta importante
Esses resultados descritos acima, muitas vezes, podem ser ocasionados pela realização do autoteste fora da chamada ‘janela imunológica’.
“A janela imunológica é o tempo entre a infecção e o teste ficar positivo. Com os autotestes de terceira geração, estamos falando de aproximadamente 30 dias. Se a pessoa teve uma relação de risco ontem e fizer o autoteste hoje, o resultado não vai refletir essa exposição. O corpo ainda não produziu anticorpos detectáveis.”
Papel na prevenção combinada
Além da eficácia técnica, o infectologista destaca a importância de compreender o lugar do autoteste dentro da chamada prevenção combinada — estratégia que reúne diferentes métodos de cuidado para reduzir as novas infecções pelo HIV. Segundo ele, o recurso deve ser visto como uma ferramenta que complementa outras práticas já consolidadas, e não como solução isolada.
“Vejo pessoas que, por medo excessivo, acabam fazendo autotestes em excesso e sofrem psicologicamente com isso. Não é esse o objetivo. O autoteste deve estar integrado à prevenção: PrEP, PEP, preservativo e testagens regulares. O Ministério da Saúde já permite prescrever PrEP a partir do resultado de autoteste, desde que confirmado em consulta médica. Isso mostra o nível de confiança que temos nessa ferramenta.”
Outras orientações ao usuário
Ao final, o infectologista reforça que, mais do que a disponibilidade dos testes, o desafio está em garantir que as pessoas tenham informação de qualidade para usar o recurso de forma correta. Para ele, a clareza nas instruções e a compreensão sobre a janela imunológica são determinantes para que o autoteste cumpra seu papel na prevenção.
“Todos os autotestes vêm com instruções bem explicadas. O problema é que muitas vezes a pessoa acha que não precisa ler. Precisa, sim. Há detalhes que variam de uma marca para outra.”
“O que mais falta ainda é informação. As pessoas precisam entender o que é a janela imunológica, se estão fazendo o teste no momento certo. Esse conhecimento é fundamental.”
Fonte: Agência Aids