O potencial inexplorado das células CD8: como a imunidade celular pode ser a chave para a cura do HIV

A busca por uma cura para o HIV ganhou novos contornos científicos após uma série de apresentações na Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections 2026, realizada recentemente em Denver, nos Estados Unidos. Pesquisadores relataram avanços que reforçam o papel da imunidade celular — especialmente das células CD8 — como um possível caminho para o controle duradouro ou até a eliminação do vírus.

As descobertas desafiam uma das premissas mais consolidadas da história da epidemia: a de que a infecção prolongada pelo HIV levaria inevitavelmente ao esgotamento do sistema imunológico. Durante décadas, acreditou-se que o vírus induzia um estado de “senescência imunológica”, caracterizado por envelhecimento precoce das células de defesa e inflamação crônica persistente — mesmo em pessoas sob terapia antirretroviral (TARV) por longos períodos.

Esse quadro era apontado como um dos fatores por trás da maior incidência de doenças cardiovasculares, certos tipos de câncer e distúrbios neurodegenerativos em pessoas vivendo com HIV.

Nos últimos anos, no entanto, evidências vêm sugerindo um cenário mais complexo. Estudos apresentados anteriormente na International Aids Society Conference 2025 já indicavam que parte das pessoas em tratamento prolongado abriga o DNA do HIV em regiões celulares onde sua reativação é improvável. Esses indivíduos poderiam, em alguns casos, manter o vírus sob controle mesmo após a interrupção da TARV — tornando-se os chamados controladores pós-tratamento.

O mecanismo por trás desse controle, contudo, permanecia incerto.

Na CROI 2026, o imunologista Victor Appay, da Universidade de Bordéus, apresentou dados que ajudam a preencher essa lacuna. Segundo ele, uma parcela de pessoas com supressão viral de longo prazo mantém populações funcionais de células CD8 — responsáveis por identificar e destruir células infectadas.

“Quando iniciei o estudo, esperava encontrar células envelhecidas e disfuncionais”, afirmou o pesquisador durante a apresentação. “Mas o que vimos foi o oposto.”

A análise, baseada em amostras históricas da coorte IMMUNOCO, comparou células coletadas antes da existência da TARV, durante os primeiros tratamentos e após décadas de terapia combinada. Os resultados mostraram que, embora o número de células CD8 específicas para o HIV seja baixo em pacientes tratados a longo prazo, essas células apresentam características inesperadas.

Elas exibem baixos níveis de marcadores associados ao envelhecimento celular, como CD38 e CD57, e alta expressão de CD28 — um marcador típico de células jovens, em estágios iniciais de desenvolvimento. Além disso, carregam o fator de transcrição TCF-1, ligado à autorrenovação e à formação de células de memória.

Segundo Appay, essas características indicam que o organismo pode gerar continuamente novas células CD8 com potencial de resposta ao HIV, mesmo após décadas de infecção.

Capacidade de resposta preservada

Testes laboratoriais reforçam essa hipótese. Quando expostas novamente a antígenos do HIV, cerca de 50% das células CD8 de indivíduos em tratamento prolongado foram capazes de proliferar — uma resposta significativamente superior à observada em amostras anteriores à TARV, quando apenas 0,5% das células reagiam.

Essas células também demonstraram alta capacidade citotóxica, produzindo proteínas como perforina e granzima B, essenciais para destruir células infectadas. O perfil funcional observado é semelhante ao de indivíduos que controlam naturalmente o HIV sem tratamento.

Apesar disso, o fenômeno não é universal: apenas cerca de um terço das pessoas em TARV de longo prazo apresenta esse tipo de resposta imunológica. Ainda assim, os pesquisadores apontam que essas células podem ser “reprogramadas” ou estimuladas por meio de vacinas terapêuticas e adjuvantes imunológicos.

Estratégias em desenvolvimento

Entre as abordagens em estudo estão combinações de vacinas de mRNA com moléculas que ativam o sistema imune, como agonistas de TLR8. Ensaios pré-clínicos indicam que essas estratégias podem ampliar tanto a proliferação quanto a capacidade destrutiva das células CD8.

Outro eixo de pesquisa envolve os chamados anticorpos neutralizantes — tanto os amplamente neutralizantes (bNAbs) quanto os autólogos (anAbs), produzidos pelo próprio organismo.

A infectologista Katie Fisher, da Universidade de Aarhus, apresentou dados de três pacientes que participaram de estudos de cura e conseguiram manter o HIV sob controle por anos sem tratamento. Dois deles permanecem sem TARV há mais de seis anos.

Esses indivíduos desenvolveram respostas robustas de anticorpos autólogos antes mesmo da interrupção do tratamento, sugerindo que o sistema imunológico estava preparado para conter o vírus. Em um dos casos, a perda de controle foi associada a uma mutação viral que permitiu escapar dessa resposta imunológica.

Além dos anticorpos, os três pacientes apresentaram perfis de células CD8 semelhantes aos observados nos estudos de Appay, reforçando a hipótese de que a combinação entre imunidade celular e humoral é determinante para o controle viral.

Assinaturas genéticas do controle

Outra contribuição relevante veio de Anna Farrell-Sherman, do Fred Hutchinson Cancer Center, que analisou a atividade genética de pessoas após a interrupção da TARV.

O estudo identificou diferenças marcantes entre indivíduos que conseguem controlar o vírus e aqueles que apresentam rebote rápido. Nos controladores, genes ligados à atividade antiviral — incluindo aqueles associados às células CD8, células apresentadoras de antígenos e células natural killer — são ativados precocemente, antes mesmo de o vírus se tornar detectável. Já nos não controladores, essa resposta genética simplesmente não ocorre.

Segundo os pesquisadores, essa distinção fornece pistas valiosas para o desenvolvimento de novas terapias. “Estamos começando a identificar alvos claros para intervenções que possam induzir esse tipo de resposta em mais pessoas”, indicou a equipe.

Um caminho possível para a cura

Os dados apresentados na CROI 2026 não representam ainda uma cura para o HIV, mas apontam para uma mudança significativa na compreensão da doença. Em vez de um sistema imunológico inevitavelmente exaurido, parte dos pacientes pode manter — ou reconstruir — uma resposta imune funcional e até potente contra o vírus.

A possibilidade de estimular essas respostas, seja por vacinas terapêuticas, anticorpos ou intervenções genéticas, coloca as células CD8 no centro das estratégias mais promissoras para alcançar o controle duradouro do HIV.

Para a comunidade científica, o desafio agora é transformar essas descobertas em terapias replicáveis em larga escala — e entender por que apenas alguns indivíduos desenvolvem naturalmente esse tipo de resposta.

Enquanto isso, os resultados reforçam uma perspectiva que até pouco tempo parecia distante: a de que a cura do HIV pode depender menos da erradicação completa do vírus e mais da capacidade do sistema imunológico de mantê-lo permanentemente sob controle.

Fonte: Agência Aids com informações do site Aidsmap