Marie Claire: Casos de HIV avançam entre mulheres acima dos 50 anos no Brasil e expõem diagnóstico tardio

Participação dessa faixa etária entre os casos femininos passou de 10,9% para 17% na última década, em um cenário marcado por relações estáveis, tabu e baixa percepção de risco

Enquanto entre as populações mais jovens a infecção pelo HIV cai, o cenário entre pessoas acima de 50 anos, especialmente mulheres, é o contrário. Na última década, a participação dessa faixa etária entre os diagnósticos femininos passou de 10,9% para 17%. Os dados são do Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde.

A estatística revela não apenas uma mudança demográfica, mas também o problema do diagnóstico tardio. “Muitas dessas mulheres são casadas e estão em relações estáveis. O HIV é o último exame que o médico pede”, afirma a infectologista Raquel Guimarães, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Entre mulheres acima dos 50 anos, a principal forma de transmissão é via heterossexual, contrariando a ideia de que o risco está restrito a determinados grupos. “O uso de preservativo dentro de uma relação considerada estável é um grande desafio. Existe uma expectativa de fidelidade que muitas vezes não corresponde à realidade”, explica a médica.

A dificuldade de negociar o uso de proteção, a dependência financeira e o próprio tabu em torno da sexualidade nessa fase da vida contribuem para a vulnerabilidade dessas mulheres. Há também um componente biológico. Com a chegada da menopausa, alterações hormonais podem tornar o organismo mais suscetível à infecção. O ressecamento vaginal, por exemplo, pode causar microlesões durante a relação sexual, facilitando a entrada do vírus.

Sintomas que passam despercebidos

Como o exame de HIV não costuma fazer parte da rotina de mulheres com mais de 50 anos em relacionamentos estáveis, o diagnóstico só vem quando a infecção já está em estágio avançado. Para piorar, perda de peso, falta de apetite, fadiga e infecções recorrentes podem ser confundidos com outras condições comuns, protelando a descoberta do vírus.

O grupo mais afetado é o das mulheres pretas e pardas. Em 2025, 62,5% dos diagnósticos nessa faixa etária ocorreram entre elas, escancarando desigualdades no acesso à informação, aos serviços de saúde e às estratégias de prevenção.

O Brasil é referência na chamada prevenção combinada do HIV, que reúne diferentes ferramentas disponíveis gratuitamente no SUS. Entre elas estão a PrEP (profilaxia pré-exposição), que reduz significativamente o risco de infecção, e a PEP (profilaxia pós-exposição), indicada após uma situação de risco.

Pessoas em tratamento que atingem carga viral indetectável deixam de transmitir o vírus por via sexual. Mas essas estratégias ainda são pouco conhecidas entre mulheres acima dos 50 anos, que muitas vezes nem sequer se percebem como público-alvo dessas políticas.

A orientação de Guimarães para mulheres acima de 50 anos é que elas peçam para seu médico incluir testes de HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) nos exames de rotina. Quanto mais cedo o diagnóstico e o início do tratamento, melhor o prognóstico para a saúde da pessoa.