CROI 2026: Doravirina e islatravir surgem como nova opção de tratamento inicial contra HIV,

Uma combinação de dois medicamentos antirretrovirais — doravirina e islatravir — administrada uma vez ao dia mostrou eficácia comparável ao regime padrão de três fármacos Biktarvy como terapia inicial contra o HIV, segundo resultados apresentados na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas. O estudo, de fase 3 e alcance internacional, reforça o potencial de esquemas simplificados de tratamento, embora especialistas apontem ausência de vantagens clínicas claras em relação às terapias já disponíveis.

A pesquisa foi apresentada pelo infectologista Jürgen Rockstroh, da Universidade de Bonn, durante o encontro científico realizado em Denver, nos Estados Unidos.

Combinação de dois fármacos mostra eficácia semelhante

O estudo avaliou a eficácia do regime composto por doravirina e islatravir (DOR/ISL), comparando-o com a combinação tripla bictegravir, emtricitabina e tenofovir alafenamida (BIC/F/TAF), comercializada como Biktarvy e amplamente utilizada como tratamento de primeira linha para HIV.

A doravirina é um inibidor não nucleosídeo da transcriptase reversa, já aprovado para uso clínico sob o nome Pifeltro. Já o islatravir representa uma nova classe de antirretrovirais — os inibidores da translocação da transcriptase reversa nucleosídica — que atuam de forma distinta dos medicamentos mais antigos da mesma família.

O ensaio clínico incluiu 536 pessoas sem tratamento prévio para HIV, recrutadas em 20 países. Os participantes foram randomizados para receber dose diária de doravirina 100 mg com islatravir 0,25 mg ou o regime padrão BIC/F/TAF.

O principal objetivo era medir a proporção de pacientes com carga viral inferior a 50 cópias/ml após 48 semanas de tratamento. Os resultados mostraram:

* 91,8% de supressão viral no grupo DOR/ISL

* 90,6% no grupo BIC/F/TAF

A diferença confirmou a não inferioridade do regime experimental em relação ao tratamento padrão.

Segurança e resposta imunológica

Os participantes de ambos os grupos apresentaram aumento semelhante na contagem de células CD4, indicando recuperação imunológica comparável. O estudo também demonstrou que o islatravir na dose testada não compromete a produção de linfócitos — uma preocupação levantada em pesquisas anteriores.

Os efeitos adversos foram poucos e semelhantes entre os grupos. Entre os eventos mais comuns estiveram:

* ganho de peso

* cefaleia

* redução da função renal

* distensão abdominal

A variação média de peso após 48 semanas também foi próxima entre os regimes.

Histórico de preocupações com o islatravir

O desenvolvimento do islatravir passou por interrupções nos últimos anos. A farmacêutica Merck iniciou estudos com o medicamento há mais de uma década, mas a Food and Drug Administration (FDA) suspendeu pesquisas em 2021 após evidências de redução na contagem de células CD4 em participantes que receberam doses mais altas. Os estudos foram retomados posteriormente com doses menores, consideradas mais seguras.

Resistência e casos de hepatite B

Apesar da eficácia geral, o estudo registrou alguns pontos de atenção. Dois participantes do grupo DOR/ISL desenvolveram mutações de resistência aos medicamentos. Ambos apresentavam carga viral muito elevada e baixa contagem de CD4 no início do tratamento.

Também foram registrados três casos de aquisição de hepatite B entre participantes que utilizavam o regime experimental. Em um dos casos, foi necessária a troca para o tratamento padrão, já que o tenofovir — presente no Biktarvy — possui atividade contra o vírus da hepatite B.

Comentando os resultados, o especialista Anton Pozniak, do Hospital Chelsea and Westminster, defendeu que estudos clínicos com regimes que não incluam tenofovir deveriam exigir vacinação contra hepatite B.

Potencial de simplificação — mas sem vantagens claras

Ao apresentar os dados, Rockstroh destacou que a combinação doravirina/islatravir pode representar uma opção de tratamento inicial com apenas dois medicamentos e sem necessidade de inibidores da integrase, mantendo alta eficácia mesmo em pacientes com carga viral elevada ou baixa imunidade.

No entanto, especialistas questionaram os benefícios práticos do novo esquema. Durante debate na conferência, o infectologista Paul Sax, da Harvard Medical School, afirmou que o regime não demonstrou vantagens específicas.

Segundo ele, apesar de não inferior ao tratamento padrão, a combinação apresentou alguns pontos desfavoráveis, como surgimento de resistência, casos de hepatite B e ausência de benefícios metabólicos relevantes.

Caminho aberto para novos esquemas

Os resultados reforçam a busca por tratamentos mais simples para o HIV, com menos medicamentos e potencial redução de custos ou efeitos colaterais. Contudo, especialistas destacam que novos estudos serão necessários para demonstrar benefícios clínicos claros antes que a combinação doravirina/islatravir possa competir com regimes consolidados na prática clínica.

Fonte: Redação da Agência de Notícias da Aids com informações