“É um marco na prevenção, mas aprovação não significa acesso imediato”: médicos analisam aval da Anvisa ao lenacapavir
A aprovação do lenacapavir injetável para profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi recebida com otimismo e cautela por infectologistas e especialistas em saúde coletiva.
Para os médicos ouvidos pela Agência Aids, o registro do medicamento representa um avanço importante ao ampliar as estratégias de prevenção de longa duração, mas ainda enfrenta obstáculos concretos para chegar à população por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente em relação ao preço e ao processo de incorporação pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).
O lenacapavir é um antirretroviral de longa duração, administrado por via subcutânea a cada seis meses, indicado para adultos e adolescentes a partir de 12 anos, com peso mínimo de 35 quilos, após confirmação de teste negativo para HIV. Estudos clínicos apontam eficácia próxima de 100% na prevenção da infecção, com desempenho superior ao da PrEP oral diária em contextos de adesão inconsistente.
Confira a seguir a avaliação dos médicos sobre o avanço, os limites e os desafios para a implementação da nova tecnologia.
Dr. Mateus Ettori, infectologista do Centro de Referência e Treinamento em Aids de São Paulo

“A aprovação PrEP de longa duração pela Anvisa representa um marco na resposta brasileira ao HIV, ao ampliar o leque de estratégias preventivas disponíveis.
Para países como o Brasil, que apresentam uma epidemia marcada por desigualdades de acesso, essas tecnologias têm potencial transformador, especialmente quando integradas a políticas públicas robustas que considerem equidade, gênero, vulnerabilidades sociais e direitos humanos. Quanto maior o número de opções disponíveis, maior a possibilidade de personalização da prevenção.
A redução da dependência do uso diário de comprimidos é um benefício importante, sobretudo para populações mais jovens ou com maior dificuldade de manter regimes contínuos.
No entanto, é importante destacar que a aprovação regulatória não significa acesso imediato. O exemplo do cabotegravir injetável é ilustrativo: aprovado pela Anvisa em 2023, com aplicação a cada dois meses, seu potencial foi rapidamente reconhecido, mas ainda não há definição sobre sua incorporação ao SUS.
Além disso, o custo elevado por dose constitui um desafio importante, limitando o acesso sem subsídios e reforçando a necessidade de negociações que viabilizem preços compatíveis com a realidade do sistema público.”
Dra. Zarifa Khoury, infectologista e doutora em Saúde Coletiva

“O lenacapavir é uma droga com mecanismo de ação diferente das outras drogas usadas para tratamento do HIV.
Por isso mesmo, tem uma grande chance de não apresentar falhas na prevenção do HIV, além de ser altamente eficaz. A liberação pela Anvisa já era esperada por todos esses fatores.
O seu uso injetável a cada seis meses seria um avanço principalmente para pessoas que apresentam dificuldade de aderir aos comprimidos diários e para aquelas que já apresentam algum comprometimento renal, como hipertensos, portadores de diabetes e idosos.
Para a população em situação de rua, seria uma ótima alternativa.
O único obstáculo é o preço. O desafio é conseguir uma redução substancial para a compra. Com certeza, essa aquisição cobriria espaços não alcançados pela profilaxia oral.”
Dra. Rosana Del Bianco, diretora de Internação no Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids do Estado de São Paulo

“A aprovação do lenacapavir para uso injetável duas vezes ao ano veio somar às estratégias de prevenção já existentes, com boa eficácia para evitar a infecção pelo HIV. Temos também, para uso injetável, o cabotegravir, aprovado no Brasil, com aplicação a cada dois meses.
Essas duas drogas aprovadas via injetável são antirretrovirais, não são vacinas. Isso significa que a não utilização do medicamento no período correto deixa a pessoa exposta à infecção pelo HIV caso haja contato ou exposição sexual de risco.
A PrEP via oral é amplamente distribuída pela rede do SUS e consiste na utilização de um comprimido ao dia, que contém tenofovir e emtricitabina. Essa é uma estratégia essencial para a prevenção do HIV, assim como o uso do preservativo.
O grande problema dessas injeções é o preço elevado. Além da aplicação a cada dois ou seis meses, dependendo da droga utilizada, o custo ainda é muito alto. No entanto, os estudos realizados com o lenacapavir demonstraram eficácia alta em mulheres africanas, homens que fazem sexo com homens e pessoas trans. Sem dúvida, é uma tecnologia altamente eficaz, e precisamos lutar para que esse preço possa cair.”
Dr. Álvaro Costa, infectologista do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids do Estado de São Paulo

“Ontem, mais um capítulo histórico da prevenção do HIV foi escrito no nosso país.
Os estudos não deixam dúvida: é extremamente segura e eficaz para prevenção, com eficácia próxima de 99% a 100%.
A maior reflexão é quanto tempo essas medicações demoram para chegar aos sistemas de saúde. O custo anual estimado do lenacapavir gira em torno de 20 a 30 mil dólares. Como transpor esses resultados espetaculares para a implementação dentro dos sistemas de saúde?
O maior desafio hoje é traduzir ciência em implementação. Precisamos acelerar negociações, discutir quebra de patentes e estimular a produção de versões genéricas dessas medicações, especialmente em países com alta incidência de novos casos. Não podemos levar 10 ou 20 anos para implementar uma tecnologia que já demonstrou resultados fantásticos em segurança e eficácia.”
Rico Vasconcelos, infectologista e pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

“A aprovação do registro do Lenacapavir, tanto para PrEP quanto para tratamento do HIV, é uma coisa que deve ser muito comemorada, mas com algumas críticas? Primeiro porque é um medicamento que é muito potente, muito eficaz, seja no tratamento, ou seja na prevenção do HIV, muito cômodo, porque permite uma injeção a cada seis meses, e isso pode revolucionar o mundo do HIV, a epidemia mundial de HIV.
No entanto, com o preço pelo qual ele está sendo proposto de ser comercializado, isso faz com que toda a revolução potencial deixe de acontecer? Então a gente comemora com críticas, porque não adianta ter uma medicação incrível se o acesso vai ser muito limitado.
Então agora, além de comemorar a aprovação da Anvisa, é hora da gente começar a luta para que aconteça a ampliação do acesso ao Lenacapavir.”
Fonte: Agência Aids


