Revista Marie Claire: Ativista conta como leva vida normal com HIV: ‘Só consegui engolir o remédio quando engoli o diagnóstico’

A palestrante e ativista Ana Paula Brun precisou tomar uma série de comprimidos de placebo para superar sua dificuldade de engolir as pílulas, um desafio que enfrentava desde a infância, e ficar indetectável do HIV.

A palestrante e ativista Ana Paula Brun, 50, está indetectável em relação ao HIV há 20 anos. Ela descobriu que tinha o vírus ao tentar doar sangue para uma criança. Na época, o tratamento para a prevenção da Aids não era disponível pelo SUS para todos, como é atualmente.

Brun conta que o seu diagnóstico aconteceu em 1997. “Doei sangue para uma criança que estava precisando e saí de lá realizada porque achei que seria doadora para sempre. Só que algumas semanas depois, eu recebi uma correspondência do hemocentro, pedindo para eu voltar lá porque tinha dado alterações no meu exame”, explica.

A palestrante de Alvorada (RS) não se assustou com o pedido. Ela pensou que poderia estar grávida ou com anemia, um quadro que tinha desde a infância.

‘Descobri que tinha sido infectada pelo HIV ao ter uma forte dor de garganta’

No laboratório, recebeu a notícia de que estava com HIV. Ela relata que é até difícil explicar o que sentiu quando descobriu o quadro porque o cenário brasileiro de tratamento não era positivo. “Em 1997, estávamos falando ainda em sobrevida. O médico disse que eu poderia ter sete anos de sobrevida. Então, eu tinha 21 e sabia que iria morrer antes de fazer 30”, lembra.

Em busca de entender como tinha sido infectada

No mesmo dia em que descobriu que tinha HIV, Brun ligou para o seu namorado da época e pediu para que ele fosse até o laboratório fazer o teste. O dele deu negativo.

Então, a palestrante ligou para os dois namorados anteriores, explicou a situação e pediu para que eles realizassem o teste. O resultado de um deles deu positivo. Mas foi só isso que ela soube, porque não manteve contato com ele.

A falta de tratamento para o HIV na época

Após o diagnóstico, Brun passou por uma série de consultas e exames para entender como seu organismo estava diante do vírus.

“O HIV é um vírus que ataca o sistema imunológico, responsável por defender o corpo contra infecções. Sem identificação precoce e tratamento adequado, o vírus compromete a capacidade de atuação de células de defesa, deixando a pessoa mais vulnerável a doenças. É importante diferenciar HIV de Aids: o HIV é o vírus; a Aids (ou Sida, síndrome da imunodeficiência adquirida) é uma condição que surge por consequência da infecção pelo vírus HIV e representa a fase de doença. Uma pessoa infectada pelo HIV pode nunca desenvolver Aids, sobretudo quando há diagnóstico precoce e tratamento adequado, permitindo que a pessoa possa levar uma vida saudável”, explica o infectologista Filipe Piastrelli, gerente-médico do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

No entanto, em 1997, Brun conta que apenas recebia a medicação quem estivesse com a carga viral muito alta ou com os índices de imunidade muito baixos. Nenhum dos dois era seu caso. No entanto, quando a ativista completou seis meses de diagnóstico, ngravidou sem querer — a camisinha estourou. E, então, ela passou a ser prioridade na fila de tratamento para o HIV.

Assim que a sua filha nasceu, o tratamento foi pausado. O mesmo aconteceu quando engravidou pela segunda vez, em 1999.

O tratamento correto

Brun continuou acompanhando seu quadro até que, após dez anos de ser infectada, seu médico informou que ela não poderia mais ficar sem a medicação. Naquela época, o Sistema Único de Saúde (SUS) já estava mais semelhante a como é hoje:

“No Brasil, o tratamento do HIV é gratuito e oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ele consiste no uso diário de medicamentos antirretrovirais, que impedem o vírus de se multiplicar no organismo. Com o tratamento correto, a carga viral — a quantidade de vírus no sangue — pode se tornar indetectável em poucos meses. Isso significa que o vírus fica controlado, o sistema imunológico preservado e a pessoa pode viver normalmente”, explica Piastrelli.

Porém, Brun tinha uma questão: ela não conseguia engolir comprimidos, desde a infância. Foi então que seu médico lhe ajudou.

“Ele disse para eu ir até uma farmácia de manipulação, fazer um pacote de placebo e ir para casa tomar. No começo foi complicado, mas depois eu fui me acostumando. Quando voltei ao consultório, ele entrou com a medicação”.
A palestrante precisou mudar os medicamentos três vezes, porque os dois primeiros causaram muitos efeitos adversos. Ainda assim, quatro meses depois do início do tratamento, a carga viral dela já estava indetectável.

“Eu só consegui engolir o remédio quando eu engoli o diagnóstico”

— Ana Paula Brun, palestrante e ativista

Desde então, Brun nunca mais parou o tratamento e, atualmente, está há 20 anos indetectável.