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O saldo da sobrevida - 04/06/2011

Muita coisa mudou desde os primeiros registros oficiais da Aids – divulgados no dia 5 de junho de 1981 pelo Centro de Controle de Doenças dos EUA – até hoje. Há 30 anos, ser diagnosticado com HIV era o mesmo que receber uma sentença de morte. “Em 1986 fiz o exame e deu positivo. Ouvi da médica que tinha apenas mais dois ou três meses de vida”, recorda Américo Nunes Neto, 49 anos, fundador de uma ONG de apoio a soropositivos em São Paulo. Como Américo, milhares de pessoas descobriam-se vítimas da infecção, que se alastrava com rapidez.

O mundo assistia perplexo ao avanço descontrolado do vírus e as armas para enfrentá-lo pareciam infinitamente inferiores à sua capacidade de destruição. “No início, os pacientes chegavam ao hospital para morrer”, lembra a enfermeira Márcia Moraes, diretora da divisão de enfermagem do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo. O jogo só começou a virar em 1996, com o início do tratamento com o coquetel antirretroviral, uma combinação de medicamentos capaz de atacar o vírus em diferentes frentes. “O coquetel mudou a história da Aids”, considera David Uip, diretor do Emílio Ribas. “Antes dele, a maioria dos pacientes morria.”

Hoje, 15 anos após o início do uso combinado de drogas, a medicina contabiliza o saldo obtido com a sobrevida dos pacientes. O soropositivo é totalmente diferente do de 30 anos atrás. O uso do coquetel dá à Aids o status de doença crônica, mas sua utilização de maneira prolongada causa efeitos adversos que trouxeram aos médicos novos desafios. Os principais são evitar a lipodistrofia (acúmulo irregular de gordura no corpo), as doenças cardiovasculares, a perda da função das articulações, alguns tipos de câncer e complicações renais. “Não basta mais só receitar o coquetel”, diz Valdiléa Veloso, do Hospital Evandro Chagas (RJ).

 

Diante desse novo paciente com HIV, os profissionais envolvidos estão sendo obrigados a se aprimorar, modificando a maneira de cuidar do doente. Hoje, por exemplo, o tratamento exige cada vez mais um olhar multidisciplinar. Ortopedistas, cardiologistas, nutricionistas e cirurgiões, entre outros, têm disponibilizado seus conhecimentos para ajudar a garantir qualidade de vida aos soropositivos. “O desgaste das articulações é algo comum em idosos”, diz o ortopedista Gilberto Camanho, da Universidade de São Paulo. “Mas estamos observando que, entre pessoas com HIV, isso acontece mais cedo.” Camanho e sua equipe têm desenvolvido, no Brasil, expertise para lidar com essa particularidade.

Na área da cardiologia, além de os pacientes manifestarem maior tendência a problemas como o aumento do colesterol, chama atenção a grande incidência de fumantes entre as pessoas que vivem com o vírus. “Se entre a população soronegativa a incidência é em torno de 20%, entre os soropositivos é de 45%”, diz o cardiologista Bruno Caramelli, diretor da unidade clínica de medicina interdisciplinar em cardiologia do Instituto do Coração, em São Paulo. O médico, que atua desde 1994 com soropositivos, enfatiza aos portadores a recomendação de buscar um estilo de vida mais saudável, sem tabaco, com melhor alimentação e prática de exercícios físicos.

Sair do sedentarismo também é uma forma de ajudar a controlar o acúmulo irregular de gordura causado pelos remédios. “Tive um início de lipodistrofia há cerca de cinco anos”, relembra a assistente de responsabilidade social Sílvia Almeida, 47 anos. “Reverti o quadro com o acompanhamento de uma nutricionista e academia.” Sílvia descobriu que tinha o vírus em 1994 e recebe o coquetel desde 1996. A importância da atividade física para os portadores de HIV tornou-se tão evidente – e urgente – que o Instituto Emílio Ribas, por exemplo, planeja a instalação de uma academia em suas dependências e a ONG de Américo (portador também de câncer) já disponibiliza um espaço para atividades físicas.

Apesar dos avanços, há ainda questões preocupantes. Uma delas é o fato de que, com o melhor controle do vírus, muitas pessoas têm a falsa noção de que a Aids deixou de ser uma amea­ça séria – um engano terrível – e deixaram de tomar os cuidados devidos para prevenir o contágio. No Brasil, por ano, estima-se o surgimento de cerca de 20 mil novos casos. Para Dirceu Greco, do Ministério da Saúde, a possibilidade de tratamento dá a falsa sensação de segurança. “As pessoas não podem abandonar as ações de prevenção. Entre elas, a principal é o uso de camisinha”, alerta.