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Décadas de avanços - 06/06/2011

                                                    

Considerada um mistério há 30 anos, doença tem sido desvendada, pouco a pouco

Em junho de 1981, o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos registrou os primeiros casos de uma enfermidade considerada um mistério. Um ano depois, ela recebe o nome provisório de Doença dos 5 H, em razão de casos registrados em homossexuais, hemofílicos, haitianos, heroinômanos (usuários de heroína injetável) e prostitutas (hookers em inglês).

No mesmo ano, autoridades sanitárias detectam a possibilidade de transmissão pelo ato sexual, pelo uso de drogas injetáveis e pela exposição a sangue e derivados. No Brasil, o primeiro caso é diagnosticado em São Paulo. A doença recebe o nome definitivo de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA, em espanhol, ou AIDS, em inglês).

Em 1984, a equipe do virologista francês Luc Montagnier caracteriza um retrovírus (tipo de vírus mutante que se transforma de acordo com o meio em que vive) como o causador da doença. Especialistas concluem que a AIDS representa a fase final de uma doença provocada pelo HIV. Três anos depois, o coquetel AZT é a primeira droga a reduzir a multiplicação do vírus.

Os casos registrados no Brasil totalizam 2.775 no período, seguidos por 4.535 em 1988 e por 6.295 no ano seguinte. Apenas em 1991 começa a distribuição gratuita de ANTIRRETROVIRAIS. Dez anos após a descoberta, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já registra dez milhões de pessoas infectadas no mundo.

Em 2008, o Brasil conclui o processo de nacionalização de um teste que permite detectar a presença do HIV em 15 minutos. Este ano, o primeiro antirretroviral produzido por um laboratório público brasileiro - o Tenofovir - entrou no mercado.

Também em 2011, uma pesquisa dos Estados Unidos indica que pacientes que aderem a um esquema de terapia antirretroviral reduzem em até 96% o risco de transmissão.

EXPECTATIVA DE VIDA

Trinta anos após a descoberta da AIDS, a expectativa de vida de pacientes soropositivos que se submetem a tratamento antirretroviral se aproxima da pessoa não infectada pelo HIV, segundo a diretora do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas, Valdiléa Gonçalves Veloso. "No início da epidemia, a gente media a expectativa de vida dessas pessoas em semanas e meses. Hoje, ela é indefinida", explicou.

Dados da OMS indicam que entre 30 e 35 milhões de pessoas estão infectadas.

A descoberta

Em 2007, Aparecida dos Santos* perdeu 20 dos 67 quilos, além de grande parte do cabelo. Após o fim de um casamento de sete anos, passou por três relacionamentos - todos sem sucesso. Em meio a uma nova tentativa com o marido, descobriu que era SOROPOSITIVA.

"Nesse período, eu já estava começando a emagrecer, com manchas roxas no corpo e muita gastrite. Achava que era por conta do trabalho, da responsabilidade que eu tinha e do estresse", conta a profissional de saúde, de 45 anos.

Aparecida tinha certeza de que o marido havia passado a doença para ela quando ainda eram casados - já que o relacionamento acabou por causa de outra mulher. Mas o exame feito pelo companheiro não acusou nada. Ele, mesmo assim, decidiu permanecer ao lado da esposa.

Hoje, a carga viral apontada nos exames é praticamente nula e Aparecida garante que vive em paz com a doença. "A cada dia, mato um leão na minha vida", relata. O conselho se resume a uma única decisão - o uso do PRESERVATIVO. "Tem que ter mais cuidado porque o HIV não está escrito na testa de ninguém".

Raimundo Lima*, 50 anos, sempre fez questão de se proteger - mesmo em um relacionamento que já durava 22 anos. Ainda assim, o aposentado foi infectado pelo companheiro que, inconformado com o diagnóstico da AIDS, fez um furo em um PRESERVATIVO e provocou a transmissão.

"Descobri porque tive uma neoplasia (câncer) e um coágulo no cérebro que estava afetando a vi-são. Depois, tive um tumor na perna causado pelo HIV".

Para Lima,o pior é ter de lidar com o preconceito. "A AIDS ainda é uma doença cheia de estigmas. Vivemos em um país cheio de tabus sexuais e as pessoas não querem falar de DSTS [doenças sexualmente transmissíveis]".

 

Fonte: JORNAL DE BRASILIA